domingo, 4 de agosto de 2013

"Seleção grandes jogos , grandes vitórias" Essa não é propriamente uma vitória mais permitiu o Brasil crescer


Para começar nosso quadro novo nada melhor que o Maracanazzo.

Entrar para a história é o destino natural das grandes vitórias. Difícil mesmo é que uma derrota fique eternizada nos livros e na memória. Porque, claro, quando o Uruguai marcou 2 a 1 e se tornou bicampeão do mundo em 16 de julho de 1950, conseguiu, sim, uma grande e inesquecível vitória - mas cuja merecida comemoração foi completamente eclipsada pelas impressionantes consequências que o resultado teve do lado dos derrotados, os brasileiros. A história da final da quarta Copa do Mundo da FIFA é, sobretudo, a história de uma derrota inesperada e chocante. E de um silêncio coletivo como nunca houve no futebol.

Mesmo nos uruguaios, extasiados por um título que naquela ocasião os mantinha invictos em disputas de Copa do Mundo, nada chamou mais atenção do que o fato de se sentirem, de um momento para o outro, bem no meio de um velório mastodôntico. "Jamais vi em minha vida um povo tão triste quanto o brasileiro após aquela derrota. Foi de arrepiar", relembrou anos depois Alcides Ghiggia, autor do gol da virada que deu o título aos uruguaios e de um punhado de frases pitorescas para descrever aquela tarde carioca. "Apenas três pessoas, com um único gesto, calaram um Maracanã com 200 mil pessoas: Frank Sinatra, o Papa João Paulo II e eu."

Já ganhou?

Entender o porquê de aquele jogo ter se tornado tão emblemático a ponto de receber um epíteto, Maracanazo, pelo qual é conhecido no mundo inteiro, envolve mais do que aquilo que aconteceu dentro de campo. É assunto para um livro todo – como, aliás, foi: "Anatomia de uma Derrota", de Paulo Perdigão, lançado no Brasil em 1986. Para os brasileiros, o que parecia já estar conquistado não era apenas o título mundial, mas a auto-estima do povo. Perder a decisão foi como levar um sopapo que fizesse a nação toda se desiludir da ideia de que o Brasil era o país do futuro e o futebol, sua maior expressão de talento e criatividade.

Aquela era a última rodada do quadrangular final que decidiu o Mundial, e ao Brasil bastava um empate. Não que empatar sequer passasse pela cabeça dos anfitriões. Não depois de golear a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1, enquanto os uruguaios não haviam passado de uma vitória apertada sobre os suecos (3 x 2) e um empate em 2 a 2 com os espanhóis. O meia Zizinho conta: "Na véspera do jogo, autografei mais de duas mil fotografias com os dizeres ‘Brasil campeão do mundo’." E o técnico brasileiro Flávio Costa depois admitiria: "O destino nos arrasou. Uma coisa foi decisiva: o ‘já ganhou’ da torcida, da imprensa, dos dirigentes."

Truque de roteiro

O tal "já ganhou" não se limitou apenas aos dias que antecederam a decisão: tomou conta do Maracanã durante quase todo o jogo. Com três minutos, a seleção brasileira já obrigara o goleiro uruguaio Roque Máspoli a duas boas defesas, uma em chute de Ademir e outra, de Jair. Como acontecera em cada uma de suas cinco partidas anteriores na Copa, o Brasil dominava o jogo e atacava mais, mas isso não significava que a Celeste Olímpica não tivesse lá suas chances; a principal delas aos 38 minutos, num chute de longe de Oscar Míguez que acertou a trave do goleiro Barbosa. Poderia ter sido o gol que... salvaria o Brasil? Talvez. Pelo menos de acordo com o uruguaio Máspoli: "Até a sucessão e o momento dos gols nos favoreceram. Se tivéssemos marcado no primeiro tempo, o Brasil teria os 15 minutos de intervalo para se acalmar, mudar a tática e passar por cima da gente no segundo."

O fato é que a primeira parte terminou sem mudanças no placar, a despeito das 17 ocasiões de gol que tiveram os brasileiros e das seis com que responderam os uruguaios. "O primeiro tempo foi amarrado, com o time uruguaio na defensiva, sem dar nenhuma pista daqueles contra-ataques que viriam a nos surpreender no segundo tempo", analisou o treinador brasileiro Flávio Costa, cuja expectativa de um Uruguai perigoso se esvairia ainda mais nos primeiros instantes da segunda etapa.

Com apenas um minuto e 18 segundos jogados, Zizinho avançou em direção à área e passou a Ademir, que ajeitou para que Friaça marcasse aquele que, na cabeça dos 52 milhões de brasileiros, era o gol do título. "Era a certeza de que ia começar a goleada à qual a torcida se habituara", lembrou Costa. "O gol deveria nos tranquilizar, mas teve um efeito contrário, porque o povo começou a comemorar a vitória."

O ponto de inflexão

Quem pareceu não se importar com nada do que acontecia foi o capitão uruguaio Obdulio Varela. Nas palavras de Oscar Míguez: "Obdulio ficou um minuto gritando com todo mundo: juiz, assistentes, os brasileiros, nós mesmos. E não largava a bola. Quando fui apanhá-la para reiniciar a partida, ele gritou ‘ou ganhamos aqui, ou eles nos matam’. Era uma ordem."

Ordem de um capitão daqueles não era coisa para se descumprir. Aos 21 do segundo tempo, repetiu-se pela 13ª vez na partida um confronto na ponta-direita do ataque do Uruguai: Ghiggia com a bola dominada frente a frente com Bigode. O habilidoso ponteiro superou seu marcador, foi à linha de fundo e cruzou rasteiro para a conclusão de Juan Schiaffino. "Fez-se um grande silêncio", lembra o goleiro Máspoli. "Nesse instante, tenho certeza, todos os brasileiros sentiram medo de perder."

Embora o empate lhe bastasse, a Seleção continuava atacando. Era o jeito que sabia jogar, afinal, e o que vinha dando certo até então. Parece que a partir de então o destino já estava traçado. "Não foi o segundo gol que nos derrotou, mas o primeiro", confessaria depois Flávio Costa. Mas, com tudo isso, não dá para dizer quem alguém esperava o que aconteceu aos 34 minutos do segundo tempo. Mais um Ghiggia x Bigode. Mais uma vez, vantagem do uruguaio. "Pelo meio, vinha correndo outra vez Schiaffino, esperando o passe para trás, como no primeiro gol", conta Ghiggia. "Barbosa também pensou na repetição da jogada anterior e se adiantou para cortar o cruzamento. Vislumbrei a chance de chutar direto no gol".

Chutou. Seu único tiro ao arco no jogo inteiro. A bola passou entre a trave esquerda e o goleiro brasileiro. O impossível acontecia, e para sempre Barbosa carregaria um pesado e exagerado fardo de culpado. "Foi a maneira que encontrei de entrar na História do Brasil", lamentaria, com humor melancólico, o ex-goleiro anos depois. "Neste país, a pena máxima criminal é de 30 anos. Não sou criminoso e já cumpri dez anos a mais do que isso. Tenho o direito de dormir tranqüilo", clamaria ele numa entrevista de 1994, seis anos antes de sua morte.

Epílogo 

Os brasileiros ainda ensaiaram atacar - algo que, diante do estado de catatonia coletiva, adiantou pouco. Às 16h45, quando o inglês George Reader determinou o final da partida, uma aura de incredulidade e tristeza tão densa tomou conta do Maracanã que, mesmo entre os uruguaios, a lembrança é de mais comoção do que explosão. "Eu chorava mais do que os brasileiros, pois tive pena ao ver como sofriam. Foi como se chorasse por eles. Ainda no campo, quando esperávamos que nos dessem a taça, tive o ímpeto de correr para o vestiário. Estávamos todos muito emocionados", lembra Schiaffino.

O próprio Presidente da FIFA à época, Jules Rimet, dedicou àqueles momentos logo após o final da partida um trecho interessante de seu livro "A História Maravilhosa da Copa do Mundo": "Faltando alguns minutos para o fim do jogo (que estava 1 x 1), deixei meu lugar na tribuna de honra e, já preparando os microfones, desci até os vestiários, ensurdecido pelos gritos da multidão. (...) Eu seguia em direção ao campo e, na saída do túnel, um silêncio desolador havia tomado o lugar de todo aquele júbilo. Não havia guarda de honra, nem Hino Nacional, nem entrega solene. Eu me vi sozinho, no meio da multidão, empurrado para todos os lados, com a taça debaixo do braço. Acabei por encontrar o capitão uruguaio e, quase às escondidas, entreguei-lhe a Copa."

Aquele gesto registrava oficialmente, para sempre, uma vitória corajosa e brilhante. E tudo o que o rodeava registrava, de forma ainda mais definitiva, uma derrota acachapante e eterna, que nem os cinco títulos mundiais que os brasileiros conquistaram desde então foram capazes de apagar por completo.

Uruguai 2 x 1 Brasil
Data: 16 July 1950
Estádio: Maracanã, Rio de Janeiro, Brazil
Público: 174.000
Árbitros: George Reader (ENG); Arthur Ellis (ENG) e George Mitchell (SCO)

Uruguai
Roque Máspoli, Óscar Míguez, Juan Schiaffino, Rubén Morán, Eusebio Tejera, Victor Rodríguez Andrade, Matías González, Obdulio Varela, Alcides Ghiggia, Julio Pérez, Schubert Gambetta
Técnico: Juan López

Brasil
Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo Alvim, Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico
Técnico: Flávio Costa

Gols: Friaça 47’, Schiaffino 66’ e Ghiggia 79’

Fonte: www.fifa.com

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