Ainda restavam alguns minutos para o fim do jogo, mas quase ninguém mais conseguia conter a emoção. Com o gol de Pelé – o quinto da goleada brasileira na final da Copa do Mundo da FIFA 1958 contra a anfitriã Suécia – e o apito final do árbitro Maurice Guigue logo em seguida, uma explosão de euforia tomou conta do estádio Rasunda, a ponto de fazer aquele jovem fenômeno de 17 anos desabar em lágrimas junto a companheiros como Gilmar dos Santos Neves.
A cena, imortalizada pelas câmeras, acabou se tornando emblemática também para o goleiro, dez anos mais velho que o herói do título e, sobretudo, alguém que até então se mostrara imperturbável na campanha. Buscar consolo nos ombros de Gilmar foi, então, algo natural para Pelé. “A Copa tinha acabado com meu gol. Depois, não sabia o que falar, não sabia se gritava e comecei a chorar. O Gilmar estava ali. Ele era um dos mais velhos e mais experientes da Seleção junto com o Nilton Santos”, relembrou o eterno camisa 10, em recente entrevista ao FIFA.com.
Gilmar estava ali, e não por acaso. Mesmo que não fosse o capitão da equipe – a braçadeira era de Zito – e que ele próprio tivesse chorado, sozinho, após a conquista, sua experiência e altivez serviam de exemplo para os companheiros e aterrorizavam os atacantes adversários. Era uma combinação de qualidades que, aliadas à invejável elasticidade, o transformaram no maior goleiro brasileiro de todos os tempos e no único legítimo bicampeão mundial de sua posição – Castilho, nas mesmas campanhas de 1958 e 1962, e o italiano Guido Massetti, em 1934 e 1938, foram sempre reservas de suas seleções.
Espera recompensada
A imagem de um Gilmar imponente consolando o jovem Pelé entrou para a história, mas escondia um fato curioso: na verdade, ambos ali eram estreantes em Mundiais da FIFA. A tal experiência que o camisa 10 relataria mais tarde vinha, de fato, dos anos em que o goleiro brilhara ainda com a camisa do Corinthians. Apesar de ter estreado na Seleção em 1953, ele não fez parte do grupo que participou da Copa do Mundo de 1954. Só foi mesmo se consolidar na equipe nacional a partir de 1955, então com 25 anos.
E foi relativamente tarde, pouco antes de completar 28, que chegou à Suécia para sua primeira Copa, já como titular indiscutível e, sobretudo, como um porto seguro de uma Seleção que ia aos poucos encontrando equilíbrio entre ataque e defesa. Com elegância e arrojo, Gilmar passou os primeiros quatro jogos sem ser vazado, série que se encerrou apenas na semifinal, nos 5 a 2 sobre a França. No fim, terminou a campanha com quatro sofridos. Gilmar se manteve no topo no ciclo seguinte, terminando mais uma vez como um dos destaques da conquista do bicampeonato mundial, desta vez tendo levado cinco gols.
Foi no Chile 1962, aliás, que o goleiro realizou uma de suas defesas mais marcantes: no duro jogo contra a Espanha – que podia representar a eliminação brasileira em caso de derrota –, ele parou primeiro um lance de ninguém menos que Ferenc Puskás para depois salvar o rebote com maestria. “Os próprios espanhóis justificaram a eliminação naquela jogada”, destacou o goleiro em uma entrevista concedida anos depois ao Jornal da Tarde. De fato, o Brasil perdia até então por 1 a 0 e virou para 2 a 1. No fim, mesmo sem Pelé, caminhou de forma inabalável até o título.
Gilmar ainda chegou a disputar sua terceira Copa, na Inglaterra 1966. Foi titular nos dois primeiros jogos, mas acabou substituído pelo botafoguense Manga, vendo de fora a derrota para Portugal, que decretou a eliminação precoce da Seleção. Suas outras grandes conquistas vieram pelos dois principais clubes que atuou e se tornou ídolo.
E mesmo que o currículo registre dez anos e quase 400 jogos disputados pelo Corinthians, foi mesmo no Santos – ao lado daquele mesmo Pelé, acompanhando todo o amadurecimento do Rei –, que ele viveu seus grandes momentos. “No Santos tive as maiores conquistas, apesar de também ter sido campeão algumas vezes no Corinthians”, contava Gilmar. “Éramos uma família, sem vaidades, uma equipe fabulosa, que dificilmente perdia um campeonato e enchia os olhos mesmo dos que torciam contra.”
Definição de goleiro
O Santos do inesquecível ataque de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe foi também o Santos de Gilmar. Ao longo dos oito anos na Baixada, ele não se cansou de levantar taças – diversas delas de grande prestígio, como a Copa Intercontinental de 1962 contra o Benfica, em Portugal, jogo o qual considera o mais especial de sua passagem pelo clube (os paulistas venceram por 3 a 2 no Maracanã e por 5 a 2 fora). Com o respeito conquistado e sua confiança dificilmente abalada, encerrou a carreira aos 39 anos, após quase duas décadas nas quais foi considerado por muitos como a própria definição da palavra goleiro.
Definição que ele parecia assimilar à perfeição. “O goleiro é o astro isolado dentro do time, um artista à parte, com coreografia diferente: tem que saltar, fazer pose, algo que ninguém mais faz”, dizia Gilmar, completando: “Ele tem mais responsabilidade que atacante, porque é ali que tudo se decide. E, no fim, todo mundo tem sempre alguém para ampará-lo; ele, não". Pelé, por sinal, teve.