sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A volta depois do adeus

A volta depois do adeus
A aposentadoria muitas vezes representa o adeus a uma determinada atividade. Todos os jogadores temem essa hora e, quando ela finalmente chega, não é fácil se imaginar pelo resto da vida fazendo outra coisa que não aquilo que fazia de melhor. Assim, mesmo que o segredo da juventude eternaainda não tenha sido descoberto, alguns decidiram dar uma segunda chance à vida nos gramados. O exemplo mais recente é o de Juan Sebastián Verón, que decidiu sair aposentadoria para ajudar o clube do coração, servindo de deixa para que o FIFA.com voltasse a atenção a esses veteranos que haviam pendurado as chuteiras, mas que acabaram voltando a calçá-las por diferentes motivos.
Era certo e definitivo: não veríamos mais o Brujita em campo como jogador profissional. Após uma fantástica carreira que tivera início - e fim - no Estudiantes de La Plata e que passara por Argentina, Itália e InglaterraVerón anunciava seu afastamento dos gramados em junho de 2012, aos 38 anos. Inconsoláveis, os torcedores pincharratas tiveram de se contentar em ver o ídolo na posição de diretor esportivo do clube, mas voltaram a sorrir quando, um ano depois, o craque trocou o terno e a gravata pela camisa vermelha e branca da equipe. "Amo jogar futebol e procuro estabelecer metas", explicou o meia da seleção Argentina no começo do Torneio Inicial de 2013. "E, ao ver a situação da equipe e as dificuldades do mercado, me pareceu ser a hora de dar uma mão." Com espírito nobre, o ex-jogador da Inter de Milão destinou todo seu salário ao centro de formação de atletas do Estudiantes, talvez na esperança de que saia de lá seu sucessor.
Foi também por afeição a um clube de formação, o Högaborgs, que Henrik Larsson voltou a calçar as chuteiras aos 41 anos. O ídolo do Celtic, que não pôde honrar sua promessa de encerrar a carreira no clube escocês, voltou a campo em junho de 2013, quatro anos depois de sua última partida oficial. Então no cargo de auxiliar técnico, Larsson voltou a campo para ajudar a equipe de seu país natal, prejudicada pelo excesso de lesões. Entre os companheiros de equipe, um jovem chamado Jordan Larsson, de 15 anos, dava início à carreira. Era o filho do craque. Curiosamente, o ex-jogador da seleção inglesa Chris Sutton, companheiro do sueco no time de Glasgow, também havia retomado o caminho dos gramados em 2012, aos 39 anos, três anos após tê-los deixado. O clube era o Wroxham, onde começava a surgir um goleiro de 16 anos, Oliver Sutton, filho de vocês sabem quem.
O retorno dos quarentõesOutra história de família é a de Romário, que em 2009, aos 43 anos, voltou a campo como profissional para vestir as cores do América. "Foi a maneira que encontrei para realizar um velho sonho de meu pai", declarou o campeão mundial de 1994, que homenageava Edevair Faria, falecido no ano anterior e que sempre quis ver o filho vestir a camisa de seu time de coração. Terceiro colocado na Copa do Mundo da FIFA quatro anos depois do título do Baixinho, Robert Prosinecki seguiu os mesmos passos dois anos após ter anunciado que deixaria de jogar profissionalmente. "Decidi ajudar o Savski Marof porque é uma equipe que meu falecido pai adorava", explicou quando passou a defender o time da quarta divisão croata.
Quem sabe bem como é difícil abandonar suas raízes é o francês Jocelyn Angloma. Aposentado da função em 2002, aos 37 anos, o ex-defensor de Valência e Olympique de Marselha foi requisitado pelo Étoile de Morne-à-l'Eau, clube amador de Guadalupe onde deu seus primeiros chutes, para a disputa de uma partida da Copa da França. Ele não só encarou o desafio, como foi além e passou a integrar a seleção de Guadalupe, participando da Copa do Caribe e conseguindo a classificação para a Copa Ouro 2007. Além disso, ajudou os Gwada Boys a obterem um desempenho histórico com a participação na semifinal, marcando um dos quatro gols contra Honduras. Aos 41 anos, foi com a sensação de dever cumprido que pendurou as chuteiras uma segunda ocasião, dessa vez definitivamente. Mas será mesmo?
É que, mesmo depois de passar dessa idade, tem gente fazendo milagres. O camaronês Roger Millatinha uma primavera a mais do que Angloma quando se tornou o jogador mais velho na história a marcar um gol da Copa do Mundo da FIFA — contra a Rússia, nos Estados Unidos 1994. Antes disso, contudo, ele havia anunciado que tiraria o merecido repouso aos 37 anos, depois de três bem-sucedidas temporadas com o Montpellier. Mas, pelo puro prazer de jogar, passou a defender o Saint-Pierroise, de Reunião, e levou a equipe aos títulos da copa e do campeonato da ilha, um território francês. A sequência da história foi memorável. Chamado para ajudar os Leões Indomáveis na Itália 1990, colocou seu país nas quartas de final e continuou jogando e balançando as redes por outras seis longas temporadas, se aposentando dos gramados para valer apenas em 1996, aos 44 anos.
A longevidade de Milla talvez tenha inspirado outro grande craque que decidiu voltar à ativa depois de alguns anos parado. Em 2003, o nome de "Jay Goppingen" não representava nada aos adversários na ficha das equipes, mas a surpresa vinha quando o jogador era visto em pessoa. Acontece que, sob esse pseudônimo, se apresentava um atacante alemão de 39 anos que, cinco anos antes, fechava as cortinas de uma carreira muito bem construída, marcada principalmente pelo título de campeão mundial em 1990. Esse jogador era Jürgen Klinsmann.
Residindo na Califórnia, o antigo goleador de Tottenham e Bayern havia ajudado o Orange County Blue Stars a se classificar para os mata-matas da quarta divisão americana, marcando cinco gols em oito jogos. "Faço isso simplesmente pelo prazer, e isso me mantém em forma", explicou o alemão, que alguns anos depois seria contratado como técnico do selecionado dos Estados Unidos e que havia escolhido seu pseudônimo em homenagem à cidade onde nasceu, Göppingen.
Mas foram razões completamente diferentes que instigaram outro grande nome da seleção alemã,Mario Basler, a voltar a desfilar seu talento como profissional. Ex-meio-campista de Werder Bremen, Bayern e Kaiserslautern, pelo qual disputara seu último jogo em 2003, ele estava muito bem adaptado ao cargo de técnico até o dia em que teve a ideia de fazer uma aposta com o amigo David Winterstein, presidente do Rot-Weiss Oberhausen. Basler perdeu, e o que estava em jogo era seu retorno aos gramados com a camisa do time bávaro, então na sétima divisão.
Amizade e gramados inglesesUma história de amizade foi também o que levou Aldair, que fez história com a camisa da Roma, a tirar as chuteiras do armário para defender o Murata, de San Marino, em 2007, três anos depois de se despedir dos campos. Massimo Agostini, colega do brasileiro no clube da capital italiana, havia colocado o clube no topo do campeonato nacional, o que garantiu uma vaga na preliminar da Liga dos Campeões da UEFA. Enquanto isso, o ex-zagueiro da Seleção ocupava seu tempo jogando futebol de areia, atividade que também foi encarada por Dida, que teve seu auge no Milan, depois de aposentar as luvas em 2010. Contudo, dois anos depois, o chamado do futebol falou mais alto e o goleiro assinou com a Portuguesa, de onde saiu para defender o Grêmio, clube onde está atualmente. Agora, deixar os gramados já não é o assunto do momento.
O mesmo pode-se dizer do holandês Edgar Davids, que deixou o merecido descanso em duas oportunidades. A primeira delas dois anos depois de encerrar a carreira pelo Ajax, quando passou a vestir a camisa do Crystal Palace, na segunda divisão inglesa. A segunda também depois de dois anos fora dos gramados, com o jogador completando 39 anos na função de treinador e jogador do Barnet, da quarta divisão.
O encanto dos gramados ingleses parece ser mesmo difícil de resistir, pois o ex-craque Sócratestambém assumiu a dupla função de técnico e meio-campista no Garforth Town em 2004, aos 50 anos de idade – mais de dez depois de sua última partida oficial. Já o Wembley conseguiu a proeza de tirar simultaneamente da aposentadoria Ray ParlourMartin KeownGraeme Le Saux e Ugo Ehiogu, ex-jogadores da seleção inglesa, bem como o argentino Claudio Caniggia e o americano Brian McBridepara a disputa da Copa da Inglaterra. E tudo isso com o ex-treinador inglês Terry Venables na comissão técnica e o ex-arqueiro da seleção inglesa David Seaman como treinador de goleiros.
O sentimento de todos esses jogadores, e provavelmente de todos aqueles que veem o dia da aposentadoria se aproximar, é bem resumido pelo marfinense Bonaventure Kalou, que, após uma trajetória rica em gols e títulos com Costa do MarfimFeyenoord e Paris Saint-Germain, havia colocado um ponto final na carreira de jogador em 2010, mas voltou a atuar dentro das quatro linhas um ano mais tarde, pelo Combs-la-Ville, da 11ª divisão francesa. "Senti muita falta do futebol nesses últimos meses", admitiu à época. "Estou feliz de voltar ao vestiário e encontrar os companheiros de equipe. Pouco importa em que nível, o futebol é minha vida."

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