Um milagre com a marca de Careca
Um Vasco da Gama liderado por Roberto Dinamite, um Internacional que girava em torno a Falcão e um Palmeiras inspirado por Jorge Mendonça eram tidos como os favoritos às vésperas do Campeonato Brasileiro de 1978. Atlético Mineiro, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo e São Paulo, que contavam com grandes talentos como Reinaldo, Palhinha, Joãozinho, Zico e Darío Pereyra, respectivamente, também apareciam entre os concorrentes de peso.
Esse grupo, porém, definitivamente excluía o Guarani. Era impensável que um time de fora de umacapital estadual pudesse ser campeão nacional – e muito menos o Bugre. O clube de Campinas nunca tinha sequer chegado perto de ganhar o Campeonato Paulista. Para piorar sua situação, enfrentava uma crise financeira e tinha se visto forçado a vender alguns de seus maiores salários e contratar um técnico desconhecido, um tal Carlos Alberto Silva.
Aos 38 anos e com poucos recursos, o treinador foi obrigado a subir quatro jogadores das categorias de base: Odair, Tadeu, Gersinho e um atacante de 17 anos apelidado de Careca. Os garotos passaram por uma prova de fogo já na primeira rodada, quando o Vasco saiu do Brinco de Ouro da Princesa como vencedor por 3 a 1, com três gols de Dinamite.
A partir daquele momento, o Guarani realizou uma campanha irregular, mas fez o suficiente para, no fim, se classificar na quinta colocação entre os 12 times do Grupo D da primeira fase. A seguir, ficou em quarto de nove equipes no Grupo J e passou para a terceira etapa, que começou com uma visita a Porto Alegre, onde o Internacional, que buscava seu terceiro título nacional em quatro anos, o receberia.
E o Davi campineiro não apenas superou o Golias porto-alegrense, como também arrasou. Carecalevou à loucura os zagueiros Beliato e Vanderlei Luxemburgo, e Zenon selou a vitória por 3 a 0 com um gol espetacular. Foi o início da série de seis triunfos e um empate do Guarani em sete jogos, o que lhe permitiu chegar às quartas de final como campeão do Grupo Q.
No primeiro mata-mata, o Bugre derrotou o Sport com um 6 a 0 na soma dos placares, e alcançou as semifinais, com o goleiro Neneca chegando a sete jogos sem sofrer gols – um recorde do clube à época. Então, o Guarani venceu o Vasco em casa e fora e garantiu vaga na decisão.
Improvável
Ainda assim, o time de Campinas chegou à final como inequívoco azarão. O Palmeiras, seu adversário, tinha 18 títulos paulistas e seis brasileiros – nenhum clube, aliás, era tão vitorioso quanto o Verdão no cenário nacional – contra nenhum do Bugre. O alviverde comandado por Jorge Vieira também contava com craques da Seleção como o goleiro Leão, o zagueiro Beto Fuscão e o meia-atacante Jorge Mendonça, além de Nei, um mágico nos dribles. A sensação, portanto, era a de que o time do Parque Antarctica poderia resolver o assunto antes mesmo de jogar a partida de volta no Brinco de Ouro.
Ainda assim, o time de Campinas chegou à final como inequívoco azarão. O Palmeiras, seu adversário, tinha 18 títulos paulistas e seis brasileiros – nenhum clube, aliás, era tão vitorioso quanto o Verdão no cenário nacional – contra nenhum do Bugre. O alviverde comandado por Jorge Vieira também contava com craques da Seleção como o goleiro Leão, o zagueiro Beto Fuscão e o meia-atacante Jorge Mendonça, além de Nei, um mágico nos dribles. A sensação, portanto, era a de que o time do Parque Antarctica poderia resolver o assunto antes mesmo de jogar a partida de volta no Brinco de Ouro.
Na metade do segundo tempo do encontro no Morumbi, porém, a balança pendeu para o lado do Guarani. Leão cometeu pênalti ao dar uma cotovelada na nuca de Careca e foi expulso. Como já havia feito as duas substituições então permitidas, o Palmeiras foi forçado a encarregar o atacante Escurinho de defender a cobrança de Zenon, mas a canhota infalível do meia do Bugre fez a diferença.
Zenon havia assegurado ao Guarani a vitória por 1 a 0 em São Paulo, mas o cartão amarelo que recebeu significava que ele ficaria de fora do jogo de volta, em Campinas. Para a sorte do Bugre, seus companheiros compensaram a ausência.
O volante Zé Carlos teve uma atuação que, segundo Carlos Alberto Silva, valeu duas notas dez. “Ele fez o trabalho de dois”, explicou o técnico. Manguinha, que virou titular naquele jogo, foi uma fortaleza, e o atacante Bozó infernizou a zaga palmeirense.
No entanto, quem ficou com as manchetes foi Careca. Nove minutos antes do intervalo, o atrevido garoto tirou a bola de Beto Fuscão dentro da grande área com um toque que foi mesmo um passe para Bozó. O goleiro Gilmar ainda defendeu o chute do atacante, mas o rebote acabou nos pés deCareca, que, da entrada da área, finalizou no canto oposto do arqueiro.
E não importou que, no segundo tempo, Careca não tenha conseguido marcar aquele que seria um dos gols mais fantásticos da história do Brasileirão – um drible excepcional no goleiro seguido de um toque de calcanhar na direção do gol, cortado em cima da linha – já que 1 a 0 foi como tudo terminou. O 13º gol do garoto de Araraquara na campanha acabava de levar o Guarani àquele que possivelmente foi o título mais improvável do Campeonato Brasileiro.
“Foi muito difícil no começo do campeonato”, relembra o jogador, que voltaria a ser campeão nacional pelo São Paulo, em 1986, e pelo Napoli, em 1990, e marcaria 29 gols em 63 jogos pela Seleção. “Não éramos ninguém e nosso técnico não era conhecido, mas o que nos faltava em fama e experiência nós compensamos com união e dando nosso máximo. Sempre acreditamos que era possível.”
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