quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Shakhtar de quarta geração

Em time que está ganhando, por vezes você é obrigado a mexer, mesmo quando não quer. Agora, e na fórmula para a construção deste time? O Shakhtar Donetsk, multicampeão ucraniano e expandindo seu nome para além das fronteiras do país, não tem nenhuma motivação para alterá-la.
Desde 2002, o clube passou a investir pesado na aquisição de brasileiros, muitos deles pouco ou nada conhecidos internacionalmente. Tudo começou com a chegada do centroavante Brandão, vindo de um modesto São Caetano. Desde então, mais de duas dezenas de revelações do país foram contratadas para construir uma verdadeira hegemonia no Leste europeu.
Muitos deles se transferiram depois para potências do continente – como no caso do habilidoso Willian, mais recente reforço do Chelsea, ou do volante Fernandinho, do Manchester City. Mas isso não significou em momento algum a queda do time de Donetsk. Com um faro apurado na detecção de novos talentos, o Shakhtar renova seu poderio constantemente, buscando reforços em sua inesgotável fonte, com destaque nesta temporada para o meia-atacante Bernard, campeão da Copa das Confederações da FIFA.
"O treinador prefere os mais jovens, para ter uma sequência de desenvolvimento no time e prepará-los. Também têm mais facilidade para se adaptar", conta ao FIFA.com o meia Elano, um dos primeiros que chegaram ao clube sob a gestão de Mircea Lucescu, que tem papel decisivo nessa história. "Ele respira futebol. Está sempre assistindo a vídeos. Você vê que os brasileiros que vão são de muita qualidade e estão despontando. Por isso seguem ganhando tudo." 
Paixão nacionalO romeno assumiu o Shakhtar em 2004. Encomendou logo cinco brasileiros, incluindo Elano, que se juntariam ao pioneiro Brandão. O meia relata que, a partir daí, o treinador sempre procurava seus jogadores para discutir e coletar informações de outros possíveis alvos no mercado: "Perguntava sempre o estilo de tal jogador, se iria ajudar, como era com a família... Sempre há esse diálogo". 
A conversa vem sendo tão boa que, hoje, a quantia de brasileiros já é dobrada em relação ao início de trabalho. “O técnico é obcecado pelo futebol brasileiro. Por isso somos 12”, contaBernard, pondo na conta Eduardo da Silva, croata naturalizado. Dessa turma toda, Eduardo, 30, é o mais velho. Ilsinho, de 27, é o segundo na lista, seguido por Luiz Adriano, de 26 – e há sete no clube, aquele de mais longa estadia. O restante? De 25 para baixo. 
Não há como questionar os resultados. Com Lucescu, o Shakhtar conquistou sete Campeonatos Ucranianos, quatro Copas e uma UEFA Cup (atual UEFA Europa League). É um projeto interessante, no qual o romeno promoveu a integração de duas culturas de futebol, que fica evidente na formação de seu elenco. 
Com exceção de Ismaily, defensor brasileiro que fez carreira no futebol português, o restante da legião está concentrada do meio-campo para a frente. Isto é, seu time defende com europeus, ucranianos na maioria, e vai ao ataque com suas apostas. "O Shakhtar tornou-se ao longo dos anos uma equipe reconhecidamente de brasileiros. Montei esse grupo e tenho com eles quase uma relação de pai e filho”, afirma o romeno ao SporTV.com.
Quarta geração           Dos novos integrantes da família, o treinador se empolga ao falar de Bernard, prodígio do Atlético Mineiro vencedor da Libertadores. “Joga muito”, avalia. “Já está acostumado a jogar em um futebol de alto nível. Estou muito ansioso para ver do que ele é capaz na Europa.”
Essa foi a contratação que ganhou mais atenção, mas o baixinho não foi o único garimpado. Ele faz parte da já quarta geração de brasileiros a desembarcar em Donetsk, ao lado de Fred Santos, ex-Internacional, Wellington Nem, ex-Fluminense, e Fernando, ex-Grêmio e também campeão da Copa das Confederações.
Em 2004 a rota Brasil-Ucrânia não era das mais trafegadas, essa transferência, pela distância e choque cultural, ainda desperta certa desconfiança na cabeça de atletas tão jovens, a despeito do sucesso de tantos compatriotas pelo Shakhtar. Ainda mais para quem, no momento, se vê incluído no grupo de Luiz Felipe Scolari.
“Para falar a verdade, pensei nisso quando estava vindo, e me perguntei se eles não iriam se esquecer de mim, se eu não iria, digamos, ficar escondido”, diz Fernando, que procurou o treinador da Seleção. A resposta não poderia ser mais animadora. Quando o assunto é Shakhtar, com tantos possíveis convocados em questão, Felipão é obrigado a se inteirar. “É um clube muito organizado e que disputa a Champions”, avaliza. “Vão jogar em alto nível e terão orientação com um técnico diferente, que normalmente vai acrescentar alguma coisa, está lá há muitos anos e fala um pouquinho de português.”
Enquanto vai introduzindo seus conceitos a seus novos brasileiros, Lucescu não esconde de ninguém seus planos audaciosos. “Queremos ganhar a Liga dos Campeões”, sentencia. O que não assusta o valente Bernard. “Ele me falou dos objetivos do clube, e são os mesmos que os meus”, diz aquele que é a mais nova faceta de uma velha fórmula. “O Shakhtar deve ganhar sempre.”

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