Como muitos dos grandes nomes do esporte, Gheorghe Hagi recebeu diversos apelidos. Para o mundo, ficou conhecido como o "Maradona dos Cárpatos". Para os torcedores do Galatasaray, era o "Comandante". Na Romênia, tinha uma alcunha mais simples e direta. Até hoje, Hagi é "Rei".
Pode parecer um exagero à primeira vista, mas, na sua terra natal, Hagi é indiscutivelmente o maior jogador de todos os tempos. Antes da seleção comandada pelo brilhante meia nos anos 1990, havia pouca coisa notável na história do futebol romeno, algo que fosse capaz de empolgar os torcedores locais. Hagi, no entanto, possuía uma incrível capacidade de transformar o comum em extraordinário.
Habilidade, visão de jogo, conclusões potentes e precisas e uma rara propensão criativa fizeram dele um dos maiores jogadores da sua geração. Embora fosse comum vê-lo instruindo e cobrando os companheiros de equipe dentro de campo, havia uma alegre exuberância no seu estilo de jogo — um verdadeiro prazer de estar com a bola — que levava brilho a tudo o que Hagi fazia. Ele era, em resumo, um craque nato.
Os pais de Hagi não demoraram a descobrir. Aos três anos, o jovem Gheorghe foi matriculado paratreinamentos em um clube na cidade de Constanta. "Com 11 anos de idade eu já havia participado de uma competição profissional chamada Cupa Sperantei", conta Hagi ao FIFA.com. "Em dois anos seguidos, fui o craque da competição e também o artilheiro."
Grandes clubes, sortes diferentesA sorte lhe sorriu e, em 1983, aos 18 anos, Hagi fez a primeira das 124 apresentações pela seleção da Romênia. Levaria mais quatro anos, no entanto, para ele conseguir a primeira grande transferência da carreira, quando assinou com o Steaua de Bucareste. 
Em grande parte da sua trajetória, os sucessos com os clubes que defendeu não estiveram no mesmo nível dos feitos obtidos por ele pela seleção nacional. Até vieram troféus com o Steaua, clube pelo qual conquistou a dobradinha (Campeonato Romeno e Copa do Romênia no mesmo ano) três vezes seguidas. Porém, a transferência para o Real Madrid, em 1990, mostrou-se insatisfatória e muito mal-sucedida.
Após duas temporadas ruins, Hagi foi emprestado ao Brescia, onde conheceu o dissabor de ser rebaixado no seu primeiro ano no clube. Porém, foi na segunda divisão italiana (aos 29 anos, próximo do seu auge) que o talentoso craque romeno aqueceu as turbinas para a Copa do Mundo da FIFA que acabaria por marcar definitivamente a sua carreira. 
Foram as atuações nos Estados Unidos 1994 que lhe proporcionaram a volta à Espanha, dessa vez com a camisa do Barcelona. No entanto, mais uma vez, Hagi não conseguiu atuar com regularidade e acabou ficando em segundo plano no time dos sonhos formado por Johan Cruyff. Porém, ele não considera aqueles dois anos na Catalunha um tempo perdido.
"Foi ótimo, embora eu nem sempre tenha sido titular", diz. "Cruyff deve ter sido um dos técnicos mais criativos da história do futebol. Sempre gostei muito das ideias dele, e ele sempre falava algo de novo. Aprendi muito e me sinto feliz e grato de ter tido a chance de trabalhar com ele no Barcelona."
Foi apenas aos 31 anos, em 1996, que Hagi encontrou o seu lugar no mundo, quando surpreendeu e causou desconfiança em muitos ao decidir jogar na Turquia, pelo Galatasaray. A razão, segundo ele, foi que o clube exalava uma mentalidade que o próprio Hagi admirava: "campeões que querem sempre ganhar". 
Seja qual tenha sido o motivo a levá-lo ao futebol turco, o Galatasaray foi uma escolha acertada. Quando deixou o clube, em 2001, ele era quase tão amado na Turquia quanto na Romênia, depois de ter comandado a equipe em quatro títulos nacionais consecutivos, uma Copa da UEFA e, talvez o maior de todos os feitos, uma Supercopa da Europa, contra o Real Madrid.
Foi durante esse renascimento em Istambul que o ex-jogador Luis Fernández teceu uma frase marcante sobre o meia. "Hagi é como vinho; quanto mais velho, melhor fica", declarou.
Sonho americanoNa seleção, porém, o auge do maestro romeno havia ocorrido alguns anos antes. A Copa do Mundo da FIFA 1994 não foi o primeiro Mundial de Hagi (ele já havia demonstrado nuances de brilho na Itália 1990), mas foi o torneio que o levou a ser considerado um dos melhores jogadores do planeta. 
Logo no seu primeiro jogo, uma vitória por 3 a 1 sobre a badalada Colômbia, Hagi desfilou criatividade e grande classe na articulação da Romênia, com duas assistências e um golaço por cobertura de fora da área. Em 2002, o inesquecível tento contra os colombianos foi escolhido em uma enquete do FIFAworldcup.com como o mais belo gol da história da competição.
Aquele foi o primeiro de três gols marcados por Hagi nos EUA 1994, uma experiência que ele recorda com compreensível carinho. "Foi perfeito para mim", resume. "Marquei gols que hoje estão entre os mais bonitos da história da Copa do Mundo e joguei muito bem, apesar do calor sufocante. Acho que fomos muito azarados na nossa eliminação (nos pênaltis, para a Suécia, nas quartas de final). Naquele momento eu era o melhor jogador do torneio."
"Porém, nenhum dos jogadores da chamada geração de ouro do nosso futebol se esquecerá daquele torneio. Acho que foi o melhor desempenho de uma seleção romena em todos os tempos, e não apenas pelos resultados, mas pelos jogos impressionantes que fizemos — o estilo artístico do nosso futebol."
Romênia e Hagi voltaram a uma Copa do Mundo da FIFA quatro anos depois, na França 1998. Porém, mesmo com o primeiro lugar em um grupo com Inglaterra, Colômbia e Tunísia, a eliminação para a Croácia nas oitavas de final sinalizou o fim da era dourada. 
O grande ícone daquela geração ainda disputaria mais um grande torneio antes de se aposentar: a Euro 2000. Porém, veio nova decepção. A exemplo de outro grande artista da época, Zinedine Zidane, o fim da carreira de Hagi pela seleção acabou com expulsão e derrota para a Itália: 2 a 0 nas quartas de final.
Não que isso tenha manchado a reputação de Hagi na sua terra natal. Na pesquisa de 2003 realizada pela UEFA para escolher o "Jogador de Ouro" dos últimos 50 anos em cada país, a Romêniarespondeu sem hesitação nenhuma. Embora o recorde de partidas pela seleção tenha sido batido por Dorinel Munteanu e a marca de 35 gols com a Romênia tenha sido igualada por Adrian Mutu, ninguém é capaz de igualar a posição de Hagi perante a torcida do seu país.
Novas aventuras
Foi por isso que, aos 36 anos, ele acabou sendo escolhido o novo técnico da seleção, poucos meses após pendurar as chuteiras. Porém, a passagem durou apenas dois infelizes anos. Como já aconteceu com outros grandes jogadores, o sucesso fora de campo mostrou-se mais difícil para Hagi do que dentro dele, com passagens decepcionantes por ex-clubes do tempo de jogador, como Steaua eGalatasaray.
Por outro lado, ele também se dedicou a auxiliar a Romênia na busca pelo seu próximo Gheorghe Hagi, abrindo uma escolinha de futebol que atende a cerca de 280 jovens. Esses aspirantes podem, como explicou Hagi no ano passado, se beneficiar de instalações e treinamentos de primeira linha. E eles já estarão em bom caminho se aceitarem um velho conselho do rei do futebol romeno: a técnica sempre vence a força.